segunda-feira, 13 de maio de 2013

Sentimentos que corroem, transcendem a paz, o vômito na garganta, as verdades ditas e "mal ditas", os textos que atraem e distraem...


NATUREZA VIVA
Caio Fernando Abreu

Como você sabe, dirás feito um cego tateando, e dizer assim, supondo um conhecimento prévio, faria quem sabe o coração do outro adoçar um pouco até prosseguires, mas sem planejar, embora planejes há tanto tempo, farás coisas como acender o abajur do canto depois de apagar a luz mais forte no alto, criando um clima assim mais íntimo, mais acolhedor, que não haja tensão alguma no ar, mesmo que previamente saibas do inevitável das palmas molhadas de tuas mãos, do excesso de cigarros e qualquer coisa como um leve tremor que, esperas, não transparecerá em tua voz. Mas dirás assim, por exemplo, como você sabe, a gente, as pessoas infelizmente têm, temos, essa coisa, as emoções, mas te deténs, infelizmente? o outro talvez perguntaria por que infelizmente? então dirás rápido, para não te desviares demasiado do que estabeleceste, qualquer coisa como seria tão bom se pudéssemos nos relacionar sem que nenhum dos dois esperasse absolutamente nada, mas infelizmente, insistirás, infelizmente nós, a gente, as pessoas, têm, temos - emoções. Meditarias: as pessoas falam coisas, e por trás do que falam há o que sentem, e por trás do que sentem há o que são e nem sempre se mostra. Há os níveis não formulados, camadas imperceptíveis, fantasias que nem sempre controlamos, expectativas que quase nunca se cumprem e sobretudo, como dizias, emoções. Que nem se mostram. Por tudo isso, infelizmente, repetirás, insistirás completamente desesperado, e teu único apoio será a mão estendida que, passo a passo, raciocinas com penosa lucidez, através de cada palavra estarás quem sabe afastando para sempre.
Mas já não sou capaz de me calar, talvez dirás então, descontrolado e um pouco mais dramático, porque meu silêncio já não é uma omissão, mas uma mentira. O outro te olhará com olhos vazios, não entendendo que teu ritmo acompanharia o desenrolar de uma paisagem interna absolutamente não verbalizável, desenhada traço a traço em cada minuto dos vários dias e tantas noites de todos aqueles meses anteriores, recuando até a data maldita ou bendita, ainda não ousaste definir, em que pela primeira vez o círculo magnético da existência de um, por acaso banal ou pura magia, interceptou o círculo do outro.
No silêncio que se faria, pensas, precisarás fazer alguma coisa como colocar um disco ou ensaiar um gesto, mas talvez não faças nada, pois ele continuará te olhando com seus olhos vazios no fundo dos quais procuras, mergulhador submarino, o indício mínimo de algum tesouro escondido para que possas voltar à tona com um sorriso nos lábios e as mãos repletas de pedras preciosas. Mas nesse silêncio que certamente se fará talvez acendas mais um cigarro, e com a seca boca cerrada sem nenhum sorriso, evitarias o mergulho para não correres o risco de encontrar uma fera adormecida.
Teu coração baterá com força, sem que ninguém escute, e por um momento talvez imagines que poderias soltar os membros e simplesmente tocá-lo, como se assim conseguisses produzir uma espécie qualquer de encantamento que de repente iluminaria esta sala com aquela luz que tentas em vão descobrir também nele, enquanto dentro de ti ela se faz quase tangível de tão clara. Nítida luz que ele não vê, esse outro sentado a teu lado na sala levemente escurecida, onde os sons externos mal penetram, como se estivessem os dois presos numa bolha de ar, de tempo, de espaço, e novamente encherás o cálice com um pouco mais de vinho para que o líquido descendo por tua garganta trêmula vá ao encontro dessa claridade que tentas, precário, transformar em palavras luminosas para oferecer a ele. Que nada diz, e nada dirás, e sem saber por quê imaginas um extenso corredor escuro onde tateias feito cego, as mãos estendidas para o vazio, pressentindo o nada que tu mesmo prepararias agora, suicida meticuloso, através de silêncios mal tecidos e palavras inábeis, pobre coisa sedente, te feres, exigindo o poço alheio para saciar tua sede indivisível.
Anjos e demônios esvoaçariam coloridos pela sala, mas o caçador de borboletas permanece parado, olhando para a frente, um cigarro aceso na mão direita, um cálice de vinho na mão esquerda. A presença do outro latejaria a teu lado quase sangrando, como se o tivesses apunhalado com tua emoção não dita. Tuas mãos apoiadas em bengalas mentirosas não conseguiriam desvencilhar o gesto para romper essa espessa e invisível camada que te separa dele. Por um momento desejarás então acender a luz, dar uma gargalhada ridícula, acabar de vez com tudo isso, fácil fingir que tudo estaria bem, que nunca houve emoções, que não desejas tocá-lo, que o aceitas assim latejando amigo belo remoto, completamente independente de tua vontade e de todos esses teus informulados sentimentos. No momento seguinte, tão imediato que nascerá, gêmeo tardio, quase ao mesmo tempo que o anterior, desejarás depositar o cálice, apagar o cigarro e estender duas mãos limpas em direção a esse rosto que sequer te olha, absorvido na contemplação de sua própria paisagem interna.
Mas indiferente à distância dele, quase violento, de repente queres violar com tua boca ardida de álcool e fumo essa outra boca a teu lado. Desejarás desvendar palmo a palmo esse corpo que há tanto tempo supões, com essa linguagem mesmo de história erótica para moças, até que tua língua tenha rompido todas as barreiras do medo e do nojo, subliterário e impudico continuas, até que tua boca voraz tenha bebido todos os líquidos, tuas narinas sugado todos os cheiros e, alquímico, os tenhas transmutado num só, o teu e o dele, juntos - luz apagada, clichê cinematográfico, peças brancas de roupa cintilando jogadas ao chão.
E desejá-lo assim, com todos os lugares-comuns do desejo, a esse outro tão íntimo que às vezes julgas desnecessário dizer alguma coisa, porque enganado supões que tu e ele vezenquando sejam um só, te encherá o corpo de uma força nova, como se uma poderosa energia brotasse de algum centro longínquo, há muito adormecido, todas as princesas de todos os contos de fada desfilam por tua cabeça, quem sabe dessa luz oculta, e é então que sentes claramente que ele não é tu e que tu não serás ele, esse ser, o outro, que mágico ou demoníaco, deliberado ou casual te inflama assim de tolos ardores juvenis, alucinando tua alma, que o delírio é tanto que até supões ter uma. Queres pedir a ele que simplesmente sendo, te mantenha nesse atormentado estado brilhante para que possas iluminá-lo também com teu toque, tua língua terna, a rija vara de condão de teu desejo. Mas ele nada sabe, nem saberá se permaneceres assim, temeroso de que uma palavra ou gesto desastrados seriam capazes de rasgar em pedaços essa trama onde te enleias cada vez mais sem remédio, emaranhado em ti e tuas ciladas, em tua viva emoção sintética a ponto de parecer real, emaranhado no desconhecido de dentro dele, o outro - que no lado oposto do sofá cruza as mãos sobre os joelhos, quase inocente, esperando atento e educado que de alguma forma termines o que começaste.
Muito mais que com amor ou qualquer outra forma tortuosa da paixão, será surpreso que o olharás agora, porque ele nada sabe de seu poder sobre ti, e neste exato momento poderias escolher entre torná-lo ciente de que dependes dele para que te ilumines ou escureças assim, intensamente, ou quem sabe orgulhoso negar-lhe o conhecimento desse estranho poder, para que não te estraçalhe entre as unhas agora calmamente postas em sossego, cruzadas nas pontas dos dedos sobre os joelhos.
Ah, fumarás demais, beberás em excesso, aborrecerás todos os amigos com tuas histórias desesperadas, noites e noites a fio permanecerás insone, a fantasia desenfreada e o sexo em brasa, dormirás dias adentro, noites afora, faltarás ao trabalho, escreverás cartas que não serão nunca enviadas, consultarás búzios, números, cartas e astros, pensarás em fugas e suicídios em cada minuto de cada novo dia, chorarás desamparado atravessando madrugadas em tua cama vazia, não conseguirás sorrir nem caminhar alheio pelas ruas sem descobrires em algum jeito alheio o jeito exato dele, em algum cheiro estranho o cheiro preciso dele.
Que não suspeitará da tua perdição, mergulhado como agora, a teu lado, na contemplação dessa paisagem interna onde não sabes sequer que lugar ocupas, e nem mesmo se estás nela. Na frente do espelho, nessas manhãs maldormidas, acompanharás com a ponta dos dedos o nascimento de novos fios brancos nas tuas têmporas, o percurso áspero e cada vez mais fundo dos negros vales lavrados sob teus olhos profundamente desencantados. Sabes de tudo sobre esse possível amargo futuro, sabes também que já não poderias voltar atrás, que estás inteiramente subjugado e as tuas palavras, sejam quais forem, não serão jamais sábias o suficiente para determinar que essa porta a ser aberta agora, logo após teres dito tudo, te conduza ao céu ou ao inferno. Mas sabes principalmente, com uma certa misericórdia doce por ti, por todos, que tudo passará um dia, quem sabe tão de repente quanto veio, ou lentamente, não importa. Por trás de todos os artifícios, só não saberás nunca que nesse exato momento tens a beleza insuportável da coisa inteiramente viva. Como um trapezista que só repara na ausência da rede após o salto lançado, acendes o abajur no canto da sala depois de apagar a luz mais forte no alto. E finalmente começas a falar.

Das Borboletas aos Girassóis

Das aulas de especialização à autoavaliação. Tempos de CEMAD...

Entardecera naquele domingo, e sentada na varanda observava as flores do jardim. Algumas rosas vistosas que de longe mal percebia-se que estavam a ser devoradas pelas ervas daninhas; espadas de São Jorge imponentes; beijinhos com toda sua persistência multiplicavam-se por entre os espinhos, mas nada me encantou mais que os girassóis próximos ao velho muro, alguns já floridos, procuravam o sol prestes a se pôr, outros acabavam de romper as duras sementes e transpassar a terra, alguns já com botões formando-se num lento e mágico processo. Não conseguia parar de pensar sobre a magnitude de um girassol, supera as dificuldades durante sua germinação e rompe timidamente a terra, para crescer uma planta meio desengonçada com talo frágil, até que consegue formar-se botão, e quando você acha que o processo está pronto ele ainda precisa de longos dias formando-se, semente a semente, crescendo e amadurecendo, até que finalmente suas pétalas se abrem; você chega a pensar que aquele talo frágil não irá resistir, mas ele está lá, sustentando a plenitude daquela flor que durará algum tempo. E quando se vai, deixa várias sementes pelo chão, cada uma passará por seu ciclo, como ela será depende do jardim, do jardineiro, das ervas daninhas, e do sol que ela buscará.

Mas voltando àquela tarde de domingo, na velha varanda, observando o crepúsculo, o jardim, os girassóis, e as borboletas, as últimas me encantam pela liberdade. Assim como os girassóis, parecem nascer prontas, mas passam por períodos de magnífica transformação, mas não é somente esse processo que me seduz, mas sim o compartilhar tal transformação ao mundo possibilitando que também se encantem. Voando de jardim em jardim, levando as mais belas lembranças de cada, penso que elas conhecem os melhores perfumes e as mais belas imagens, e se umas contam as outras, conhecem então o mundo todo. Tais seres me encantam tanto, que certa noite sonhei que eu as convidava para adentrar minha cabeça e lá faziam morada, percebia então que elas estavam na cabeça de todos, e eram de todas as cores e tamanhos, alguns tinham mais as coloridas, outros pareciam cuidar para que permanecessem apenas a palidez das borboletas cinzas. Alguns tentavam arrancar as borboletas coloridas das cabeças dos outros, outros tentavam convencer todos a ter o mesmo padrão de cores, mas os que realmente me envolveram foram aqueles que trocavam entre si as coloridas borboletas, e colocando-as de volta as suas cabeças, essas reorganizavam-se e construíam o seu próprio arco-íris de cores.

Mas voltando àquela tarde na varanda, o jardim, os girassóis e as borboletas. O que realmente me encantou naquele domingo foram as pessoas que junto comigo também observavam, e sentiam, e sorriam, e choravam, e cresciam, e criavam e recriavam, e transformavam...


Crônica inspirada nos contos Uma história de borboletas e A morte dos girassóis de Caio Fernando Abreu.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Noite alucinógena, som entorpecente, álcool, pele, suor... Extravasar e expulsar os medos, a repressão... Dançar, dançar... Sentir sua pele, lábios, cheiro, uma imensa vontade de me prender ao desconhecido, sem nomes, endereços ou algo que nos identificasse... Intimidade instantânea, seu ouvido, lóbulo, pescoço, são meus, sem manha, sem manhãs e sem porquês...

Espero o seu toque arrepiando minha alma... Sinto suas mãos me envolvendo, corpo, alma, luz... Quando vens? Quando chegas? Posso senti-lo mesmo quando não estas aqui...

E quando chegares quero apertar seu corpo, beijar sua boca, nuca, entorpecer, arrancar essa ausência, sugar sua essência, envolver-me, envolver-te, e serás meu...

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Sensações dormentes... Adormece e não sonha, insônia... A mente vaga, quanta ausência... Escrevo aos que sinto falta... Escrevo aos que tem asas, as almas livres que vez enquanto me encantam, desencantam... Aos que livremente voam em meio ao caos, sobrevoam meus pensamentos, sentimentos, pena que não compreendem o encantamento e receio que causam aos que há tempos precisaram aterrissar...

domingo, 27 de novembro de 2011

Acordou às seis da manhã como todo dia, tudo se tornou uma eterna rotina... Realizou as mesmas coisas de sempre, no mesmo tempo, sem precisar de cronômetro... Mas um dia de vida, sem vida, que começa... Os “bons dias” de sempre, acompanhados do mau humor, hipocrisia, desapego... Ah como as coisas mudaram! Como as pessoas são diferentes, rostos sombrios, insegurança, onde está a compaixão?

Não são só os outros que o incomodam, ele é o incômodo... Parece confuso, distante, sozinho... A sensação de desamor, talvez isso seja o que lhe causa maior angústia... Sabe que ainda existem muitos motivos para ser feliz, só não entende porque não consegue... Nada tem o encantamento de antes, seus livros, suas músicas, seus filmes, estão todos empoeirados nas prateleiras do passado, abandonados no tempo...

Prossegue como massa amorfa... Fúria... Irritado, irritante... Vê inimigos e não consegue reconhecer o pior deles, ELE!

domingo, 13 de novembro de 2011

O Desengasgar, O Vômito e a Cólera

Edvard Munch, O grito

"Escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta." (Caio F.)

Talvez tudo seja uma constante alucinação. Despedidas, abandono, solidão... Velhas angústias que insistem em rodear. Os pesadelos constantes que se dissipam para a insanidade do dia. A lembrança do que amedronta... O nó na garganta que nunca se desfaz, decepções, seguidas decepções, comigo, com você, com o mundo... Aqui todos são culpados!!! Sim, você também tem a sua parcela de culpa! Magoa, despreza, ignora... Quero arrancar-te de mim, puxar suas raízes venenosas, mas você as fixou muito bem, e quando as puxo se alastram ainda mais, talvez não exista solução, talvez me consuma até o fim... Não tente abster-se da culpa fingindo que eu não falo de você. Lembre-se de tudo o que fez, não seja um ser ainda mais egoísta, hipócrita... Não gaste suas palavras dissimuladas comigo, use-as para manipular outra mente...
Há tanta mágoa consumindo...
Tenho suportado essa hipocrisia a tempos, chega de farsas, de “sorrisos amarelos”, chega de “bom dia”, a verdade é que a tempos desejo que seu dia seja o que você realmente merece. Que seu dia seja o reflexo da destruição que você faz ao meu dia, que prove do ácido que oferece aos outros dizendo ser mel.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Flor de ir embora...


Tentativas de mudanças, sem lamentações, sem tanto sofrimento, sem textos... Abandono de um blog como marco do fim da acomodação e início de muitas transformações, ou talvez só a busca pelo que foi ficando no caminho... Momentos de reflexão, de relembrar como é bom a companhia dos amigos, seja na chuva fina que caía na praia, nos passeios de bicicleta, no breu rompido apenas pelas luzes alucinógenas de nossas lanternas... Reunir a família, saudades e abstração... Voltar a rotina, mas qual rotina? Não será a mesma! Uma cadeira vaga no estacionamento pela manhã, sem compras depois das aulas, sem All Star branco, sem livros estranhos, flores de fuxico, picolé de limão, apelidos criativos... A separação chegou antes do esperado, equipe multi incompleta, falta a personagem dos contos, do desenho, do filme mesmo que ele seja de terror... Uma voz me dizendo que “as vezes as coisas boas são também ruins”... A partida em busca de novas realizações, a despedida sofrida dos que devem aqui ficar... Ficamos com o velho "muro das lamentações”, sentados em sua sombra ouvindo a melodia que um dia neste mesmo lugar você revelou...


Flor de ir embora
É uma flor que se alimenta do que a gente chora
Rompe a terra decidida
Flor do meu desejo de correr o mundo afora
Flor de sentimento
Amadurecendo aos poucos a minha partida
Quando a flor abrir inteira
Muda a minha vida
Esperei o tempo certo
E lá vou eu
E lá vou eu
Flor de ir embora, eu vou
Agora esse mundo é meu
(Fátima Guedes)

E ele é todo seu Ana!!!

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010


Sentada no parapeito sente-se tão leve, seus pés finalmente livres do chão... observa a lentidão das luzes, as pessoas distraídas enquanto caminham, passos apressados, despreocupados, eufóricos, desorientados... Sente a brisa em seu corpo, as estrelas tão próximas... Lágrimas tocam sua pele, chora não sabe há quanto tempo, nem porque... Lágrimas abundantes, o sorriso no rosto... A altura não mais a amedronta, não sente mais saudades, nem anseia o futuro, sente apenas imensa vontade de voar...

segunda-feira, 29 de novembro de 2010


Um texto feliz? Quem sabe um dia! Devaneios, insônia, textos, cinismo, mensagens... Dissimulados! Quanta farsa, ilusão, para quê? O que querem de mim? Causar sofrimento? Deitem suas cabeças em seus travesseiros e comemorem a noite bem dormida, pois eu já não durmo bem há meses... Vivam e me deixem em paz, me esqueçam... Chega de hipocrisia, assumamos nossas culpas, afinal nada será como antes, não se pode voltar ao passado, e o presente jamais acontecerá sem que alguém seja infeliz... Chega de angústia, de meias palavras... Quero despir-me dessas lembranças!!!

terça-feira, 16 de novembro de 2010


Pupilas dilatadas, olhares insanos, agitados, procuram em meio à escuridão... Animais que rodeiam, possuem mais humanidade que muitos que se dizem humanos, observam sem aproximar-se... Reflexos rápidos, vozes distantes, insanidade... Alucinações noturnas, insônia e mais uma noite...

sábado, 13 de novembro de 2010


Os dias são sempre nostálgicos... As mesmas noites mal dormidas, os pesadelos constantes, as lembranças de bons momentos que nunca voltarão, se perderam para sempre... Segue sem rumo, vive do passado, de suas lamentações, talvez seja uma proteção... Prefere chorar pelo que se perdeu porque sabe que nada terá que fazer para mudar... Tem receio do presente, não assume sentimentos, apenas se protege enquanto a vida passa...

quarta-feira, 3 de novembro de 2010


Vestiu a velha camiseta, um verde já desbotado pelos anos que passaram e, como sempre acontecia, as lembranças vieram... olhou-se no espelho, como o tempo passou depressa, quantas marcas em seu rosto, sua expressão já não é a mesma, parece dura, ríspida, mas na realidade tenta apenas disfarçar a tristeza... sentou-se no sofá para mais um fim de tarde monótono olhando a TV sem que nada realmente lhe prendesse a atenção...
- Garanto que você tem saudade! disse a voz de outra pessoa sentada no sofá a sua frente.
- O que disse? responde assustada.
- Garanto que você sente saudade! afirmou novamente a voz.
Nada responde, apenas submerge em suas lembranças...
Sempre apressada descia a escadaria, mal cumprimentava as pessoas e corria para abrir a sala, por alguns segundos perdia-se com tantas chaves e chaveiros, enfim localizava a certa, dois giros com a chave na fechadura, um empurrão forte na porta, e a total escuridão que exalava a costumeira mistura de cheiros, o lanche esquecido por alguém sobre o balcão, os copos abandonados com vestígios de suco, as garrafas pet vazias no velho carrinho de compras... Em poucos segundos a luz invadia o local, o computador era ligado, as mudanças semanais, discutidas na segunda, eram expostas no mural, as pessoas aos poucos chegando, o silêncio quebrado... Passos apressados desciam as escadas, risos, muitas vozes soavam ao fundo, eufóricas, enérgicas, vivas... Alguns segundos depois, junto as vozes, o quicar das bolas...
- Todos os dias! responde após suas lembranças.
- O que disse? pergunta a voz da pessoa sentada no outro sofá.
- Sinto falta, todos os dias! responde encerando o assunto.
Alguns dias, veste novamente a velha camiseta verde, liga seu computador, olha a caixa de entrada de seu e-mail, sua atenção alerta para uma mensagem “Projeto...”, ao ler a angústia domina, sufoca, tortura... E o futuro que sonhavam, buscavam, o que aconteceu? Gritam por ajuda e ninguém se prontifica, esperam por uma reviravolta que ninguém sabe se vem...

quinta-feira, 21 de outubro de 2010


Quantas perguntas, O que realmente quer saber? Curiosidade em seus olhos que me encaram, espontaneidade que confunde, constrange, aguça minha sede por sua presença, seu sorriso, instiga e abandona... Sede aguçada, transbordaria em você, em uma taça de vinho... Devoraria cada momento, intenso, sonhado, planejado... Abandono repentino, certeza do reencontro, mais perguntas, elas nunca cessam, mais sede, fome... Solidão, silêncio, desejos, medo, tento saciar-me com as leituras nostálgicas, espero saciar-me de você...

segunda-feira, 18 de outubro de 2010


Quantas canções, conversas, saudades... Lembranças, quantos se... Entender, como? Desistência, acomodação, abandono, há tempos tem sido assim... Brincadeiras da mente enquanto dorme, desejos, aspirações, flagelações? Escuridão que acalma, relembra... Espera por quem não chega, não vem... Saudades... Promessas... Canções... E o medo... Quantas revelações deveriam ser feitas, há quanto tempo, tantos ensaios, pouca coragem... Uma carta reescrita, repensada covardemente, um abraço, lágrimas e um bilhete deixado no travesseiro...

Respire e conte até dez... Pense, repense antes da pronúncia, tudo se volta, revolta... Palavras insanas tentam convencer, cínicos, inexperientes, vocês não me enganam... Respire e conte quantas vezes necessitar, por enquanto é preciso esperar... Quantos sorrisos, quanta hipocrisia... Respire e conte, um, dois, três... Deixe o tempo passar, sem pressa... Um, dois, três...

sexta-feira, 1 de outubro de 2010


Sonhos que testam seu limite, torturam com a beleza de um sorriso, mais pesadelos que sonhos... Noites mal dormidas, dias mal humorados, quantas dores, na coluna, nos ombros, na alma... Pausas para uma hora e meia de felicidade toda quinta a noite... Sono sem fim todas as manhãs, insônia todas as noites quando relembro as tarefas que acumulam dia a dia, sem perspectiva de resolução... Chuva intensa que não lava a alma, noite solitária dirigindo a caminho de casa, sem luzes, sem obstáculos, sem limites... Manchas roxas no corpo, resultado das quedas, físicas e da alma... Contagem regressiva para mais um ano, para mais uma apresentação, mais uma reunião, mais uma visita, e as contagens reversas? Saudades, lembranças, lugares, sons, cheiros, gosto... Quando o corpo repousa, o sono ininterrupto, os medos afloram, as imagens confusas, as quedas, pequenas torturas, singelas, decepções, pequenas ilusões que ferem todas as noites, rostos, sorrisos, um beijo na testa, calafrios, gritos, medo, alívio quando se ouve o som que avisa que é hora acordar...

quarta-feira, 29 de setembro de 2010


- Como você imagina sua vida daqui a dez anos?
- Não sei... Não imagino... Talvez igual agora... Por quê? Você imagina a sua?
- Sim, tenho planos...
- Eu nunca imaginei a minha...
- Você tem que começar a pensar...

A insegurança não me permite planos distantes, tenho medo das decepções, das angústias futuras, o futuro me amedronta... O atual tem sido aflitivo, o posterior aterroriza, às vezes chego a desacreditar dele, sem perspectivas, como se não fosse real... Muita coisa parece não ser real ultimamente, tudo parece confuso como a insanidade de meus pesadelos constantes, talvez esteja só dormindo demais...É que ao menos dos pesadelos do sono posso acordar... Pensei nos planos para o próximo final de semana, aqueles que eu nunca concretizo, aqueles que dizem que eu mesma boicoto, pensei novamente naquele dente-de-leão que há dias surgiu como assunto em uma conversa, tão leve, delicado e livre, pensei novamente em ser um deles...

quinta-feira, 2 de setembro de 2010


Os dias passam...

Sem inspiração...

Sem aspirações...

sexta-feira, 20 de agosto de 2010


Mãos trêmulas, pensamentos desconexos, sentimentos a flor da pele, prontos para uma explosão quando entrarem em contato com qualquer ser que os aborreça, algo reprimido, nó na garganta, ânsia que espera mais um simples acontecimento para jorrar pela garganta o vômito de ira, trazendo consigo tudo que corrói sua essência há tempos, e que nos últimos meses tem atormentado todos os seus dias, horas, minutos, segundos... Ácido que desintegra seus conhecimentos e os expele por suas entranhas, prostituição moral, mãos que puxam para a alienação, mãos que nos dominam sem precisar de algemas, até quando sobreviveremos?

terça-feira, 17 de agosto de 2010


“E o anjo pálido troca o mel pelo sal.” (Caio F.)
- Não entendi aquela frase que postou. O que quer dizer?
- É um pequeno trecho de um conto. Você já leu Caio Fernando Abreu?
- Não. O que o conto diz?
- Vou enviá-lo.
Tudo mudou depressa demais, e o conto foi deixado de lado com os demais do livro, na velha prateleira empoeirada, até que um dia se resolve reviver sentimentos e sofrimentos e lá está ele esperando que se cumpra a promessa.


INFINITAMENTE PESSOAL

E o anjo pálido troca o mel pelo sal.
Começou a amanhecer. Não sei ao certo como soubemos que tinha começado a amanhecer: era tão escuro ali dentro que noite ou dia lá fora não faria a menor diferença. Por algumas frestas, frinchas — não importa—, tivemos certeza de que começara, claramente, a amanhecer. E por condicionamento, talvez, porque sempre com o amanhecer chega a hora de ir embora, começamos a ir embora. Feito vampiros às avessas — necessitados de luz, não de sombra.
Tinha roxo e rosa no céu. Até as latas cheias de lixo na rua deserta pareciam vagamente douradas. Fez com que caminhássemos a pé, para olharmos o céu. E enquanto eu olhava o céu limpo da cidade suja, interpunha entre nós seu primeiro muro de palavras. Confusas, atormentadas, sobre tudo e sobre nada: palavras amontoadas umas sobre as outras, como se amontoam tijolos para separar alguma coisa de outra coisa. Eu, mal sabendo que esse — que parecia seu jeito mais falso de ser — seria nas semanas seguintes seu jeito mais verdadeiro, às vezes único.
Quando o tempo passasse um pouco mais, nos surpreendendo ainda juntos em outra madrugada, minha cabeça repetiria tonta e lúcida «Éramos tão pálidos, e nos queríamos tanto”. Éramos muito pálidos naquela primeira manhã entre as latas de lixo da rua deserta, caminhando em direção ao dia de hoje — mas ainda não nos queríamos com este enorme susto no fundo dos olhos despreparados de querer sem dor.
Lembro que olhando para cima, descobri entre o roxo e o rosa das nuvens um anjo também pálido, magro e de barba por fazer, vestido de negro, com um leve sorriso nos lábios, vertendo uma gota de mel sobre nossas cabeças. Não prestei atenção nele. Me deixava levar, guiado apenas pelo jardim que entrevia pelas frestas dos tijolos, nos muros-palavras erguidos entre nós, com descuido e precisão. Viriam depois, mais muros que os de palavras, muros de silêncio tão espesso que nem mesmo os demorados exercícios de piano, as notas repetidas e os dedos distendidos, conseguiriam derrubar.
Errei pela primeira vez quando me pediu a palavra amor, e eu neguei. Mentindo e blefando no jogo de não conceder poderes excessivos, quando o único jogo acertado seria não jogar: neguei e errei. Todo atento para não errar, errava cada vez mais. Mas durante as ausências, olhando então para cima e abrindo aboca, recebia em cheio na garganta as gotas de mel do jarro de lata que aquele anjo pálido trazia ao ombro. Embora me recusasse a ver que o anjo parecia cada vez mais sombrio. Incapaz de perceber que em seu leve sorriso, bem no canto da boca, começava a surgir uma marca de sarcasmo, feito um tique cruel.
Passaram-se muitos dias. A lua deu mais de uma volta completa no Zodíaco. Ultrapassou Sagitário e caminhou até Áries, completando seu triângulo de fogo e paixão. Bati as mãos contra o muro, procurando brechas. Não havia mais. Espatifei as unhas, gritei por uma resposta qualquer. Nem uma veio de volta. Olhei para fora de mim e não consegui localizar ninguém no meio das vibrações da cidade suja. Olhei para dentro de mim e só havia sangue. Derramado, como nas cirandas.
Queria acordar, mas não era um sonho.
Então localizei outra vez aquele mesmo anjo parado entre nuvens. Estava de branco, agora, mas nenhum sorriso nos severos, em suas mãos havia um jarro de ouro. De dentro ele, chovia um mar de sal sobre a minha cabeça. Por quê?! — eu perguntei. O anjo abriu aboca. E não sei se entendo o que me diz.

Caio Fernando Abreu

E agora, você entende? Você me entende?